A mensagem de texto não foi a primeira nova tecnologia em que se pensou que iria prejudicar as habilidades sociais

A mensagem de texto não foi a primeira nova tecnologia em que se pensou que iria prejudicar as habilidades sociais

Quando Alexander Graham Bell introduziu o telefone, céticos se preocuparam em como isso poderia afetar a interação das pessoas

 

Este texto é uma tradução livre da matéria Texting Isn’t the First New Technology Thought to Impair Social Skills, de Clive Thompson, publicada em março de 2016 na revista Smithsonian Magazine.  

 

Autor original: Clive Thompson

Tradução livre: Heitor Augusto Colli Trebien

 

 

“As mensagens de texto são culpadas por arruinar o discurso pessoal e a cortesia comum”

É o envio de mensagens de texto que nos separa? Hoje em dia, falamos muito uns com os outros com os nossos polegares – enviamos mais de seis bilhões de mensagens de texto por dia nos Estados Unidos e mais alguns bilhões em serviços como o WhatsApp e o Facebook Messenger. 

No entanto, alguns se preocupam que tantas mensagens levam, paradoxalmente, a menos comunicação. Quando Sherry Turkle, psicóloga clínica e pesquisadora do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) entrevistou colegas estudantes, eles disseram que escrever mensagens de texto causava ruídos nas interações cara a cara. Enquanto saíam com os amigos, eles escreviam veladamente ao mesmo tempo, fingindo manter contato visual, mas mentalmente em outro lugar. A nova forma de comunicação foi divertida, claro, mas estava colidindo – e corroendo – a anterior. 

“Nossos textos estão bem,” disse um estudante. “É o que escrever mensagens faz nas nossas conversas quando estamos juntos que é o problema.”

Muitas pessoas concordam. Jenna Birch, uma jovem jornalista, recentemente argumentou que escrever mensagens de texto é inferior quando comparado ao cara a cara, porque é muito fácil interpretar mal – ou interpretar exageradamente – a tonalidade da conversa. Pior, escrever mensagens torna mais fácil para a geração dela se esquivar de conversas emocionais difíceis, as “conversas pesadas.” Se não mudarmos, ela advertiu, “vamos terminar em ilhas interconectadas, juntos ou separados.”

Novas tecnologias perturbam frequentemente o modo como nos relacionamos uns com os outros, claro. Mas rupturas sociais causadas pelas mensagens de texto tem um forte eco nos argumentos que tivemos há cem anos. Foi aí que um aparelho inovador nos deu uma estranha nova forma de nos comunicarmos em massa: o telefone. 

Quando Alexander Graham Bell introduziu o telefone em março de 1876, a invenção estava repleta de problemas. A linha estava uma bagunça – propensa a interferências de linhas elétricas próximas – e funcionava através de uma bateria que vazava ácido. Ainda assim, permitiu uma experiência notável e sem precedentes: pela primeira vez você poderia falar em tempo real com alguém a quarteirões ou quilômetros de distância. “Era como uma voz de outro mundo,” afirmou um dos primeiros usuários, maravilhado. Bell melhorou rapidamente a qualidade e os clientes se atropelaram. No primeiro ano, mais de 3.000 telefones foram vendidos; em 1900 já tinha um milhão de telefones a nível nacional. 

No início, o telefone era comercializado principalmente como uma ferramenta para negócios. Médicos e farmácias os compravam para processar encomendas e os proprietários de empresas os instalavam em casa para que pudessem se comunicar rapidamente. O telefone, proclamado cópia antecipada do anúncio, deu aos líderes empresariais uma espécie de percepção extra sensorial, um “sexto sentido” para suas operações distantes.

A ideia de usar uma ferramenta tão poderosa para conversas do dia-a-dia? Parecia hilária e desagradável. Um dos primeiros críticos advertiu que o telefone não deveria ser usado para “tagarelices entre mulheres tolas.” Os homens de negócio proibiram suas esposas de ocuparem a linha, para não interferirem no comércio. “No início, as mulheres eram proibidas de usar o telefone – supunha-se que os negócios tinham prioridade”, comenta Michéle Martin, professora emérita da Universidade de Carleton no Canadá e autora de Alô, Central? Hello, Central?

Mas rapidamente ficou claro que as pessoas queriam conversar – socializar. Um gestor de empresa telefônica em 1909 fez um inquérito de uso e descobriu que 30% de todas as chamadas eram de “fofoqueiras ociosas”, com duração média de 7,5 min cada ligação. Ele não gostou dessa conversa fiada, mas ele estava correndo contra o rio.

Eventualmente, as firmas telefônicas perceberam que conseguiam mais dinheiro vendendo linhas telefônicas para brincadeiras do que para negócios. “Eles perceberam – ‘conseguimos tirar mais dinheiro de fofocas, conversas fúteis e sociabilidade do telefone,” disse Claude Fischer, autor de America Calling: A Social History of the Telephone to 1940 – (Ligação americana: uma história social do telefone até 1940).

Em poucos anos, as companhias telefônicas enfatizavam como elas poderiam reduzir a isolação e reunir amigos. Uma empresa da Califórnia declarou em 1911 que seu telefone era “uma benção para a esposa do fazendeiro,” acrescentando que “isso [o telefonema] alivia a monotonia da vida. Ela não pode ser solitária com o Bell Service.” 

De fato, as mulheres se tornaram as principais usuárias do telefone. “De certa forma, era libertador,” observa Martin, porque dava às esposas ligadas à casa muito mais contato social – sem o enorme esforço de manter as aparências visuais das interações cara a cara. 

Ainda assim, os usuários tiveram dificuldades para descobrir os protocolos sociais desse novo reino etéreo. Como você inicia uma conversa quando você não consegue ver a pessoa com quem está falando? Thomas Edison defendeu o início de cada chamada com um “Alô,” mas os mestres de etiqueta acharam vergonhoso. “Parece demais com um ligação de navio a navio, um através do outro”, riu Fischer – rude e abrupto demais, um bocejo bárbaro desprovido de graça social.

Como um crítico social ridicularizou naquele tempo: “você correria em um escritório ou na porta da casa de uma residência e diria ‘Alô! Alô!’ Com quem eu estou falando?” Outros argumentaram que o telefone poderia ser bom em outros aspectos, mas não para comunicações delicadas – como convidar um conhecido para jantar. (“Nunca desculpável, exceto entre amigos muito íntimos,” escreveu a autora de etiqueta Annie Randall White, em 1901).

Não obstante, o telefone rapidamente deu início a novas formas de socialização curiosas. Chamadas regulares eram feitas pelos fofoqueiros semanalmente, ligando para as famílias se atualizarem das notícias. “A distância vai embora e por alguns minutos, toda quinta-feira à noite, vozes familiares contam uma fofoca de família que ambos os lados estão ansiosos para ouvir”, como expresso em um anúncio da Bell em 1921.

Empresas telefônicas ainda se gabaram que o telefone foi uma melhoria em relação àquela comunicação indigesta e de baixa fidelidade, a carta. “A correspondência irá ajudar por algum tempo, mas amizades não desabrocham dependendo só de cartas,” como um manual da Bell de 1931 afirmou. “Quando você não pode visitar pessoalmente, telefone com frequência. As ligações manterão toda a intimidade de modo notável.”

Logo, porém, os críticos sociais começaram a imaginar: todo esse bate-papo no telefone foi bom para nós? Foi de algum jeito uma comunicação inferior daquela que já existia? “O telefone faz o homem mais produtivo ou mais preguiçoso?” interrogaram os Cavaleiros de Colombo em uma reunião de 1926. “O telefone rompe com a vida caseira e com a prática antiga de visitar velhos amigos?”.

Outros se preocuparam que o inverso poderia ocorrer – que seria tão fácil falar que nunca ficaríamos sozinhos. “Graças ao telefone, automóveis e outras invenções semelhantes darão aos nossos vizinhos o poder de transformar nosso lazer em uma série de interrupções,” queixou-se um professor americano em 1929. E certamente não pode ser tão saudável falar tanto uns com os outros, isso não criaria muita informação?

“Em breve, não seremos mais do que um amontoado transparente de gelatina um para o outro”, um escritor londrino lamentou em 1897. Outros inquietaram-se que o telefone iria acelerar a vida, demandando reações instantâneas. “O uso do telefone abre pouco espaço para reflexão,” escreveu um jornal britânico em 1899. “Não melhora o temperamento e favorece o nervosismo em preocupações ordinárias da vida que não são feitas para o conforto e a alegria doméstica”.

Talvez o mais estranho seja estar na sala enquanto um amigo fala com outra pessoa – alguém fora da sala. Em 1880, Mark Twain escreveu Uma Conversa Telefônica, em que transcreveu metade do que ouviu de uma ligação da sua esposa. Para o observador, como a sátira apontou, a ligação soou como algo sem sentido. Mesmo as empresas telefônicas se preocupavam se o dispositivo havia criado novas formas de comportamentos rudes; Um anúncio da Bell de 1910 advertiu sobre “o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde ao telefone.”

Em essência, o telefone foi um dispositivo de teletransporte, trazendo outras pessoas – inclusive, desconcertantemente, estranhos – aparecerem de repente na casa de alguém. Jovens senhoritas, alguns inquietaram-se, estavam sob risco romântico. “O trovador serenata pode agora tamborilar seu violão pulsante diante do transmissor sem ser perturbado por apreensões de espingardas e cães de caça,” como um artigo na revista Electrical World (Mundo Elétrico) descreveu. Golpistas amam o telefone. 

“Mudou a crença das pessoas sobre a confiança social,” Carolyn Marvin observou, uma professora da Escola de Comunicação de Annenberg e autora de When Old Technologies Were New (Quando velhas tecnologias eram novas). Não podemos mais ler alguém baseado em dicas sociais do cara a cara. 

Entretanto, alguns acreditaram que o telefone melhorou nosso comportamento social, porque forçou o ouvinte a prestar mais atenção no falante. Desprovido de sinais visuais, devemos estar a “todo ouvidos e atentos”, um especialista escreveu em 1915: “a mente não pode vagar.” Além disso, ao erradicar a distância, o telefone não reduziria o mal-entendido? Mesmo a guerra? “Um dia iremos construir um sistema telefônico global, tornando necessário a todos os povos o uso de uma língua comum ou o entendimento comum entre línguas, que unirá todos os povos da terra em uma fraternidade,” exclamou John J. Carthy, engenheiro chefe AT&T em 1907.

 

 

Essas visões utópicas, claro, eram exageradamente otimistas, mas as visões sombrias dos pessimistas, como Fischer observa, também não se tornaram verdade. Até Emily Post, a expert em etiqueta, se rendeu ao telefone. Por volta de 1920, ela aceitou o “Alô” como uma saudação apropriada e até considerou que era aceitável convidar alguém para jantar com uma ligação. “O costume que alterou muitas maneiras e hábitos tirou todo o opróbrio da mensagem,” ela deu de ombros. 

Hoje em dia, o telefonema parece um retorno pitoresco a uma era mais gentil. Quando Jenna Birch, a jornalista, começou a sair com um homem que insistia em lhe fazer chamadas telefônicas, ela achou isso aconchegante e agradável – embora seus amigos achassem o comportamento estranho. Telefonemas agora parecem retrógrados.  

Acadêmicos também observaram essa mudança. “Meus estudantes não pensam no telefone apenas como um mecanismo de interação vocal – eles raramente pensam nisso,” afirma John Durham Peters, um professor de comunicação da Universidade de Iowa e autor de Speaking Into the Air (Falando no ar). Porém, ele não acredita que a mudança para mensagem de texto tenha rebaixado nossas interações.

Em meados do século 20, estudos descobriram que o telefone aparentemente não erradicou o contato social – na verdade, algumas pesquisas descobriram que aqueles com telefones escrevem mais cartas antiquadas do que aqueles sem. Similarmente, pesquisas modernas do Pew Research Center notaram que os adolescentes que mais escrevem mensagens de texto são também aqueles que passam mais tempo cara a cara com os amigos. Parece que comunicação gera mais comunicação e – como Peter argumenta – só porque a conversa acontece por texto não significa que não seja relevante. 

“Estudiosos dos meios de comunicação”, ele percebe, “tem esse longo romance com a ‘conversa’ como a cura da doença midiática”.

Ainda assim, não é difícil ficar desanimado com a atenção dividida que tantos sujeitos da pesquisa de Turkle [pesquisadora e psicóloga do MIT] lamentaram em suas vidas. Na verdade, Michéle Martin, de Carleton, acha que estamos vivendo uma reprise do telefone, onde as coisas que o tornaram valioso – comunicação instantânea – são as mesmas que o tornaram chato. “As pessoas acreditam que estão livres porque podem levar o celular para todos os lugares,” diz Martin. “Mas ao mesmo tempo elas são escravas disso”.

O poeta Carl Sandburg capturou essa dissonância em um poema de 1916 sobre o telefone. Ele imaginou que uma linha telefônica tinha consciência dos usos disparatados para os quais tinha sido criada – amaldiçoada com conversas ambas profundas e frívolas. “É amor, guerra e dinheiro; é a luta e as lágrimas, o trabalho e o desejo / Morte e risos de homens e mulheres passando por mim, detentores de seus discursos.” 

Para ler mais artigos de Clive Thompson, acesse: <https://www.smithsonianmag.com/author/clive-thompson/>